Justiça para Dr. Richard Matthew Stallman
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Índice

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1 Introdução

Dr. Richard Stallman discursando com um microfone

Figura 1: Dr. Richard Stallman discursando na CommonsFest 2015 em Atenas sobre “Uma sociedade digital livre” (“A Free Digital Society”)

Dr. Richard Matthew Stallman (nascido em 16 de março de 1953), também conhecido por suas iniciais “rms”, é um programador, hacker e ativista estadunidense do movimento software livre. Ele luta para que software seja distribuído de maneira que os usuários tenham respeitadas as liberdades de usar, estudar, distribuir e modificar o software. Software que respeita essas quatro liberdades é chamado software livre. Stallman fundou o projeto GNU, a Free Software Foundation (FSF, Fundação para o Software Livre), desenvolveu o GNU Compiler Collection (GCC) e o GNU Emacs, e escreveu a Licença Pública Geral GNU (GPL, General Public License).

Richard Stallman atualmente (desde pelo menos setembro de 2019) é alvo de campanha difamatória pela Internet que o forçou a renunciar de sua posição no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, Massachusetts Institute of Technology) e até mesmo da FSF que ele próprio fundou e liderava1. A campanha é largamente motivada por graves erros de interpretação de texto, desproporcionalidade e intolerância.

2 Erros de interpretação de texto

Uma mensagem foi enviada para uma lista de correio eletrônico do MIT promovendo um protesto relacionado a doações que Jeffrey Epstein2 fizera ao instituto1. Stallman então enviou mensagem se opondo às palavras usadas na Internet para descrever o protesto. Ele é conhecido por obstinadamente exigir precisão terminológica. Sua objeção era que seu falecido amigo Marvin Minsky3 não deveria ser acusado de ter agredido sexualmente [ tradução livre de sexually assaulting ] uma das vítimas de Epstein. Stallman afirmou que aqueles termos propiciavam acusação exagerada, e que críticas devem se basear em termos mais precisos.

As seguintes duas falsas acusações foram então feitas contra Stallman baseadas em graves erros de interpretação de texto da trilha de mensagens (original):

2.1 Stallman como apoiador de Epstein

Pelo menos um grande sítio eletrônico publicou artigo acusando Stallman de defender Epstein. O sítio não apresentou nenhum bom argumento para embasar a acusação, apenas uma citação gravemente errada. Na verdade, em 25 de abril de 2019 Stallman classificara Epstein como um estuprador em série (“serial rapist”)1 que obtivera um acordo extremamente leniente (“extremely lenient”) com a Justiça—leniente a ponto de ser ilegal (“so lenient that it was illegal”). Stallman então levantou a possibilidade de sentenciar Epstein a uma pena mais longa (“whether this makes it possible to resentence him to a longer prison term”).

2.2 Stallman como culpador da vítima

Muitos grandes sítios eletrônicos publicaram artigos acusando Stallman de considerar vítimas de Epstein como tendo se prostituído por livre vontade (“entirely willing”), devido a grave erro de interpretação de texto.

Na verdade, ao falar sobre Virginia Giuffre (a vítima de Epstein sobre quem Stallman escreveu), ele escreveu que o cenário mais plausível (“most plausible scenario”) era de que ela teria se apresentado como inteiramente disposta (“she presented herself to him as entirely willing”) (grifo meu) apesar da coerção de Epstein, visto que o traficante tinha fortes motivos para lhe dizer para esconder a coerção (“had every reason to tell her to conceal that”)1. Então em sua segunda mensagem da mesma trilha, Stallman escreveu que dadas as circunstâncias, o depoimento implicava que ela estava sob coerção de Epstein (“given the circumstances, that implies she was coerced by Epstein”)[grifo meu]. Alguns parágrafos depois ele reiterou:

Sabemos que Giuffre estava sendo coagida a fazer sexo—por Epstein. Ela estava sendo vitimizada. Mas os detalhes afetam se, e a que ponto, Minsky era responsável por isso.

[tradução e grifo meus]1

O original em inglês:

We know that Giuffre was being coerced into sex—by Epstein. She was being harmed. But the details do affect whether, and to what extent, Minsky was responsible for that.

[grifo meu]

Dessa forma, Stallman escreveu múltiplas vezes que Giuffre era vítima de sexo coagido. Ele apenas não viu evidência de que Marvin Minsky sabia da coerção. Stallman presumiu que Minsky não havia sido responsável. Ele não presumiu que Giuffre estivesse de fato disposta.

Pode-se considerar pouco realista um homem da idade de Minsky acreditar honestamente que uma garota tão jovem estivesse interessado nele, ainda que ela disfarçasse a situação de coerção. Mesmo assim, a acusação plausível contra Stallman seria de falta de razoável compreensão de relações amorosas humanas, e de involuntariamente fazer comentários insensíveis que podiam impactar vítimas de abuso sexual; é simplesmente falso acusá-lo de considerar as vítimas como tendo se prostituído por livre vontade.

3 Opiniões políticas extremamente liberais sobre sexo em seu sítio pessoal

Uma parte verdadeira da estória é que o sítio eletrônico pessoal de Stallman tem opiniões políticas extremamente liberais sobre sexo e assuntos relacionados. Alguns textos de muitos anos atrás chegaram de fato a defender a alegada liberdade de crianças fazerem sexo—mesmo com adultos—“desde que a criança aceitasse” (“if the child accepted it”). Por exemplo, um texto de 2003 dizia:

Penso que seria bom todo mundo a partir dos 14 anos participar de sexo, embora não indiscriminadamente. (Algumas pessoas ficam prontas mais cedo.)

[tradução minha] O original em inglês:

I think that everyone age 14 or above ought to take part in sex, though not indiscriminately. (Some people are ready earlier.)

Um texto de 2006 era cético quanto à afirmação de que pedofilia “voluntária” prejudicava crianças. Um texto de janeiro de 2013 expressava algo similar, mas com limites.

Eu rejeito essas opiniões. Entretanto, após conversas pessoais nos últimos anos, Stallman mudou de ideia e, em 14 de setembro de 2019, se retratou (ainda que tarde demais) quanto a tolerância a sexo entre adultos e crianças.

4 Sexo não forçado com jovem de 17 anos

Uma das mensagens vazadas (de 2019) de Stallman ainda sugeria que sexo não forçado entre um adulto e um(a) jovem de 17 anos não é “estupro”. Ao julgar essa opinião, deve-se levar em consideração o contexto mundial e o fato de que Stallman estava argumentando a favor de precisão terminológica.

Para contexto mundial, pode-se olhar para o Brasil e a Europa. De fato, a BBC informa que Alemanha, Áustria, Hungria, Itália e Portugal definem 14 anos como idade de consentimento (assim como o Brasil) e em nenhum país europeu essa idade supera 17 anos. Nesse contexto, embora eu me oponha a sexo com crianças ou pessoas no início da adolescência, eu suspeito 4 que 17 anos deveria ser uma idade suficiente para legalmente consentir com sexo.

Enfatizo a palavra legalmente. Legalidade, moralidade e aceitabilidade social são conceitos diferentes. Mesmo aqueles de nós que julgam imoral um homem adulto3 fazer sexo casual com uma moça de 17 anos podem, presumindo que Minsky pensou5 que ela estivesse disposta, considerar desproporcional torná-lo postumamente um pária.

Mesmo quem apoie uma idade de consentimento de 18 anos pode concordar que sexo não forçado com jovem de 17 anos (legal no Brasil e em toda a Europa), por ser significativamente diferente e muito menos grave que sexo forçado, deveria ser descrito por um termo específico, e não simplesmente “estupro”—o termo a que Stallman fez objeção. Ele é conhecido por obstinadamente exigir precisão terminológica, o que é especialmente importante ao acusar uma pessoa de grave crime. Se uma pessoa é acusada de ter cometido X, então é injusto levar o público a entender a acusação como Y, quando Y é significativamente diferente e muito mais grave que X.

5 Tempestade perfeita

As duas mensagens vazadas de Stallman continham trechos que, quando tirados do contexto das duas mensagens e sua anterior forte condenação a Epstein e combinados a sua antiga opinião política (tardiamente retratada) sobre tolerância a pedofilia, a sua excentricidade e falhas, e ao clima político, foram interpretadas como um argumento de que Giuffre tivesse realmente se prostituído por livre vontade. Essa difundida interpretação é falsa e causou grave injustiça a Stallman.

Há um forte movimento para combater a objetificação das mulheres—práticas como assédio sexual e tráfico de pessoas para sexo—e em particular a cumplicidade do MIT com os crimes de Epstein. Isso é uma boa ideia que, aliás, deveria ter vindo muito antes. No entanto, esse movimento cria fortes emoções que podem facilmente prejudicar inocentes ou resultar em punições desproporcionais a quem seja de fato culpado de atos impróprios. É sábio tomar cuidado contra esse perigo.

Richard Stallman tem de fato opiniões políticas extremamente liberais sobre sexo, demorou a retratar sua antiga opinião política de tolerância à pedofilia e tem suas falhas, mas isso por acaso justifica a forte campanha difamatória atual?

6 Liberdade de expressão e mente aberta

Eu não peço ao leitor que concorde com todas as opiniões de Stallman. Inclusive sou católico roxo, ortodoxo, casado, e apoio castidade e moral cristã em geral (dentro de uma cosmovisão coerente e razoavelmente tolerante inspirada pelo Papa Francisco). Eu rejeito muitas das opiniões de Stallman sobre sexo e assuntos relacionados.

No entanto, acredito em liberdade de expressão e também em “avaliai tudo, retendo o que é bom” (1Ts 5, 21). Aprende-se muito com a visão de Stallman sobre liberdades civis, privacidade, ambientalismo, justiça econômica e social, política e especialmente (é claro) liberdade de software e direitos digitais. Rejeito muitas de suas opiniões políticas extremamente liberais sobre sexo, em particular aquela antiga que ele felizmente retratou, mas trata(ra)m-se de opiniões em seu sítio eletrônico pessoal que ele claramente separa da FSF e do MIT. E apoio muitas das outras opiniões do seu sítio pessoal—assim como me oponho à intolerância e injusta violência da Revolução Francesa mas apoio a devida separação entre Igreja e Estado e o sistema métrico.

Quanto às duas mensagens que severamente prejudicaram a reputação de Stallman: assumindo que Minsky de fato fez sexo com Giuffre3 e presumindo que Minsky pensou5 que estivesse fazendo sexo casual consentido com uma jovem de 17 anos (legal no Brasil e em todos os países europeus), seria esse ato tão socialmente inaceitável que deveríamos excluir (postumamente) Minsky e ainda aplicar a mesma pena àqueles que ousam defender sua memória?

Se pessoas como Stallman são excluídas por suas opiniões políticas—e ele até retratou a opinião mais chocante—então como poderemos ter um debate honesto e discernir a Verdade? O que aconteceu com a liberdade de expressão?

7 Avaliação justa de caráter

Eu também não peço ao leitor para ignorar os pecados de Stallman—isto é, aqueles que são reais e corroborados, visto que a campanha difamatória gerou ou amplificou muitos boatos e fofoca, particularmente em redes sociais. Entretanto, a avaliação do caráter de uma pessoa deveria se basear em interpretação fidedigna de evidências reais contextualizadas. Por exemplo, a campanha difamatória exibe a foto de um papel na porta da sala de Stallman no MIT dizendo “RICHARD STALLMAN—PALADINO DA JUSTIÇA (E DE SENHORAS GOSTOSAS)”.6 A campanha omite que o papel foi uma brincadeira escrita por outra pessoa e que Stallman o removeu, mas não antes de alguém tirar a foto.7

A atmosfera influenciada pela campanha difamatória contra Stallman exagera seus pecados—além de dar crédito e difundir acusações claramente falsas ou não corroboradas—e ignora evidências, testemunhos e circunstâncias favoráveis. Isso é gravemente injusto e se assemelha a um julgamento cujo júri seja contaminado por forte campanha de linchamento midiático.

A atual campanha difamatória em redes sociais chegou ao ponto de reivindicar que até mesmo os (ex-)colegas de Stallman na FSF—e pessoas que o defendem—também sejam excluídos. Isso é característica comum de caça às bruxas—aqueles que defendem os acusados se tornam novos alvos.

8 Julgamento de Marvin Minsky

Por não ter estudado a evidência sobre Minsky, neste momento eu não tenho posição se ele de fato fez sexo com qualquer das vítimas de Epstein. Para mais informações sobre essa hipótese, pode-se consultar a trilha de mensagens e também a negação da viuva de Minsky (Gloria Rudisch) de que ele tenha feito sexo com Giuffre ou qualquer outra garota nas residências de Epstein. Ela argumentou ao New York Post que, nas poucas ocasiões em que ela e Minsky visitaram Epstein, eles estavam como casal e sempre juntos.

9 Ver também

10 Contribuições bem-vindas

Esta iniciativa precisa de ajuda—publicidade, tradução, dicas de SEO, crítica, melhoria do texto. O simples compartilhamento em redes sociais (compartilhe em muitas redes por favor) é grande ajuda. Para compartilhar em diaspora*, Mastodon ou GNU Social, eu recomendo simplesmente re-compartilhar ou dar boost nas minhas postagens lá (veja abaixo sobre meus perfis). Para outras redes sociais, preparei postagem (≃ 1,8 mil caracteres) e toot (≤ 500 caracteres) escritos em Markdown. Para usar a postagem de exemplo, sugiro obter o código Markdown que forneci e pré-visualizar na rede social alvo—ela pode não suportar Markdown, e nesse caso você pode consertar a formatação (pode me pedir ajuda). O toot não deve ser problema, pois é perfeitamente legível do jeito que é.

Eu posso ser encontrado por XMPP/Jabber, correio eletrônico (caixa “jorge+git” no domínio “disroot.org”) ou diaspora* (jorgemorais@pod.disroot.org), Mastodon (@Jorge@mamot.fr) ou GNU Social (jorge@loadaverage.org). Também aceito issues, patches, merge requests 8 e sugestões.

11 Palavras finais

11.1 Atribuição e copyleft

Este sítio eletrônico é parcialmente baseado em:

A foto de Richard Stallman é da Wikimedia Commons (eu a redimensionei).

Este sítio é publicado sob a licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-SA 4.0). Eu acredito que as citações de stallman.org (todas com ligação para o original) e as informações das notícias sejam permitidas pela legislação.

Notas de Rodapé:

2

Jeffrey Edward Epstein (20 de janeiro de 1953 – 10 de Agosto 2019), um rico traficante de mulheres (muitas delas menores de idade) para sexo. Ele desenvolveu um círculo social de elite e obtinha mulheres e garotas que então eram abusadas sexualmente por ele e por alguns de seus contatos.

3

Marvin Lee Minsky (9 de agosto de 1927 – 24 de janeiro de 2016), pioneiro da inteligência artificial e amigo de Stallman. A primeira mensagem na trilha acusa Minsky de agredir sexualmente Virginia Giuffre. Não está claro se Minsky de fato fez sexo com qualquer das vítimas de Epstein—veja a seção 8.

4

Digo suspeito por não ter estudado as devidas teorias, legislação, jurisprudência e doutrina legal para formar convicção.

5

Sobre a plausibilidade de que um homem idoso tenha acreditado que tão jovem garota estivesse interessada nele, ver a seção 2.2.

6

Tradução livre. O original em inglês dizia “RICHARD STALLMAN—KNIGHT FOR JUSTICE (ALSO: HOT LADIES)”.

8

Se você não tiver conta em GitLab.com e não puder criar uma devido ao infeliz JavaScript privativo do ReCAPTCHA atualmente exigido então me envie patches e sugestões por correio eletrônico ou redes sociais livres (10). Também aceito sugestões de outro provedor de hospedagem (alternativa ao GitLab) que melhor respeite a ética de software livre. Precisa ser gratuito ou, pelo menos, ter preço baixo em reais.

Autor: Jorge P. de Morais Neto

Criado em: 2020-07-16 qui 10:40

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